Quasi Analysis by Mário de Sá Carneiro: 2022

Spread the love

Last updated on September 9th, 2022 at 04:15 pm

O poeta

A breve vida de Sá-Carneiro parece afinal bem longa, não só pelo número considerável dos textos que escreveu (os mais antigos datam de 1903), como também pelo lugar central que, a par de Pessoa, ocupa não só no modernismo mas na poesia do século XX, na qual são múltiplos os ecos da sua obra e dos temas em que se concentrou, nomeadamente os da identidade e da loucura, transversais à prosa como à poesia.
“Quase” faz parte de “Dispersão” (1914) que, juntamente com “Indícios de Oiro” (1937) e “Poesias” (1946), constituem a obra poética de Mário de Sá-Carneiro. Este escritor, nascido em Lisboa em 19 de Maio de 1890, principiou a sua carreira individual como contista (Princípio, 1912, A Confissão de Lúcio, 1914, Céu em Fogo, 1915 ). Em 1913, em Paris, descobre o seu veio lírico. Vai tornar-se um dos três mais importantes poetas modernistas portugueses, com Pessoa e Almada Negreiros, e um excelente poeta, independentemente da geração do Orpheu. Foi ele realmente um dos mentores, fundador e até financiador (com o dinheiro de seu pai enviado para Paris) das duas revistas Orpheu publicadas em 1915, aventura em que teve a companhia de Luís de Montalvor, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Ronald de Carvalho.

Nos princípios do séc. XX, em plena Grande-Guerra, recebiam-se influências de toda a Europa e estes jovens artistas e escritores, alguns deles vivendo em Paris, como Mário de Sá Carneiro, traziam as novidades literárias e sobretudo plásticas do futurismo e correntes afins. Com a Orpheu procuraram fugir ao conservadorismo da época, em Portugal, e ansiavam agitar as inteligências e as sensibilidades dos “lepidópteros” – termo usado por Sá-Carneiro para designar aqueles que estavam na retaguarda artística ou cultural, em confronto com a modernidade, aqueles que viviam da luz alheia, cativos dela como borboletas. Na Orpheu publicaram as suas peças de escândalo: poesias sem metro em que pretendiam revelar as profundezas do inconsciente sem passar pelo crivo da razão, como era o caso da poesia automática, não corrigida, de pendor surrealista. A publicação da revista desencadeou uma onda de violência e os seus autores eram apontados a dedo nas ruas e chamados “poetas paranoicos”.

Na Orpheu revelaram-se tendências várias, que vão desde a permanência do simbolismo e do decadentismo de Eugénio de Castro e António Nobre, até às mais inovadoras como o futurismo. Sá-Carneiro vai revelar várias destas tendências na sua obra. “Manucure”, um dos poemas escolhidos para o TriploV, é o mais eloquente manifesto do futurismo em Portugal, centrado naquilo a que hoje chamamos “fonts”, e que ele certamente adoraria ver em movimento – são os recursos de uma nova arte que ele explora sem ter praticado, a publicidade, tornada profissão nova, que já Almada Negreiros exerceu, nos seus conhecidos cartazes de cinema.

O poema

Neste poema o sujeito poético faz um balanço de vida negativo, centrado na ideia da frustração de tudo o que foi sonhado, iniciado e não concluído, ou vivido apenas pela metade. Nenhum projeto ou sonho foi realizado, nenhuma meta foi alcançada, sendo que várias vezes esteve lá perto (“quasi”).
O estado de alma deste sujeito varia entre a frustração (“Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim”; “Tudo encetei e nada possuí…”; “Tudo esvaído/Num grande mar enganador de espuma”; “grande sonho despertado em bruma”; “Entanto nada foi só ilusão!”; “Asa que se elançou mas não voou…”) a incapacidade de lutar pelos sonhos (“faltou-me um golpe de asa…”; “Asa que se elançou mas não voou…”) e o sofrimento (“O grande sonho – ó dor! – quase vivido…”; “- Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…”).
Em “Quase”, aparece a problemática do Eu e do Outro, típica da modernidade. A cisão entre Eu e o Outro, embora seja comum à geração do Orpheu, neste poeta ultrapassa o domínio da filosofia para se tornar um drama pessoal, experimentado na vivência quotidiana. É ele o motivo central da sua obra, manifesto na crise de personalidade, na inadequação do sentimento ao que desejaria sentir.
Com efeito, em “Quase” manifesta-se este abismo entre o sentimento do que o poeta julga ser e a incapacidade de alcançar o que deseja, agravado pela circunstância de pouco ter faltado para lá chegar. A primeira e última quadras constituem uma chave que explica o motivo da desilusão enunciada no corpo do texto: só por lhe faltar esse “quase” não conseguiu ser feliz, só por um nada julga não ter chegado a onde o sonho o levou. Pouco faltou para ter vivido o amor e a plenitude, tão grande esta que, a alcançá-la, teria transcendido a condição humana para se confundir com o céu e suas divindades – “Um pouco mais de azul – eu era além”. Daí o lamento obsessivo, pois quem não deseja não sofre: “ Se ao menos eu permanecesse aquém…”. Aquém de quê? – aquém do “grande sonho”, e com ele do assombro, da paz, do amor, do triunfo, da paixão, do princípio e do fim, da expansão. Que lhe faltou para chegar onde queria? – não desbaratar os momentos de alma, faltou-lhe pôr altar nos templos adequados, faltou-lhe levar os rios ao mar.

O que domina é o sentimento de não ter cumprido o seu destino. Destino de que, dentro de si, apenas encontra “indícios”. É como se estivesse fechado dentro de si mesmo sem poder chegar ao absoluto – “Ogivas para o sol – vejo-as cerradas”. Porquê tão infeliz? – “faltou-me um golpe de asa”, não foi capaz de chegar lá, estando tão perto. É um drama real, construído como um poema. O drama de ser um falhado na vida, o drama de todas as gerações que se consideram perdidas.

Análise estrutural

Este poema é constituído por 8 quadras, com rima interpolada e emparelhada (esquema rimático abab/caac/adad/effe).
Entre os recursos expressivos usados encontramos a metáfora (“Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…”), a interjeição retorica (“Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído”), as reticencias (“O grande sonho – ó dôr! – quási vivido…”)- que sublinham o estado de desilusão, frustração e abatimento que o balanço de vida provoca no sujeito poético, a apostrofe (“ó dôr!”), a anáfora (“Um pouco”), a repetição (“Quási”) e a interjeição (“- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim… -“).

Whether you’re aiming to learn some new marketable skills or just want to explore a topic, online learning platforms are a great solution for learning on your own schedule. You can also complete courses quickly and save money choosing virtual classes over in-person ones. In fact, individuals learn 40% faster on digital platforms compared to in-person learning.

Also Read:  The Old Man and the Sea Essay: Man’s Archetypal Battle with Nature

Some online learning platforms provide certifications, while others are designed to simply grow your skills in your personal and professional life. Including Masterclass and Coursera, here are our recommendations for the best online learning platforms you can sign up for today.

The 7 Best Online Learning Platforms of 2022