Nevoeiro Analysis by Fernando Pessoa

Contexto

“Nevoeiro” de Fernando Pessoa é o último poema da obra “Mensagem”. A “Mensagem” é constituída por três partes, Brasão, Mar Português e O Encoberto, sendo que este poema é parte integrante deste último bloco. O Encoberto é mais assumidamente sebastianista. O Rei Encoberto virá numa manhã de nevoeiro salvar Portugal do estado de crise e de incerteza em que o deixou. A morte do Rei em Alcácer-Quibir preconizará um renascimento; Portugal voltará a ser o V Império que foi outrora: “É a Hora!”.

Análise estrutural

O poema é constituído por 14 versos octossilábicos distribuídos por uma sextilha, uma sétima e um verso isolado de três sílabas. Estes encontram-se divididos por três estrofes irregulares: uma redondilha menor, uma redondilha maior e um monóstico. O esquema rímico é “ababba” e “abbcddd” respetivamente. O verso isolado rima com o quarto verso da sétima.
Apresenta vários recursos estilísticos, a anáfora: a repetição de palavras no início de frases (Nem…Ninguém…Tudo…), para enfatizar a situação de crise; a personificação: no v. 4 (Portugal a entristecer) para acentuar a sensação de sofrimento da Pátria; a antítese: “brilho sem luz”, no v. 5, mal/bem, no v. 9 distante/perto no v.10 e tudo/nada no v. 12, distinguindo opostos que caracterizam o presente mau e o passado bom; a apóstrofe: “Ó Portugal…”, como se Portugal pudesse escutar um apelo e agisse; a adjetivação: para melhor caracterizar e qualificar o substantivo: “fulgor baço”; a exclamação no verso final como se fosse um grito de mudança.

Interpretação

  • Título

O título do poema vem no seguimento dos outros poemas da secção “Os Tempos”. Ao longo desta série de cinco poemas Pessoa descreve, metaforicamente, desde um passado remoto a um futuro ainda sem data, a evolução de Portugal. O título aponta também para uma situação de indefinição, que depois se desenvolve num tom de melancolia, marcado por palavras e expressões de negatividade (nem- advérbio de negação e ninguém- pronome indefinido), caracterizando a situação de crise a vários níveis: de identidade, política e moral. O estado em que ficou o país é de incerteza e de indefinição: “Ó Portugal, hoje és nevoeiro”. O poema aponta para um tom geral de disforia, de tristeza e melancolia, marcado por palavras e expressões de negatividade, caracterizando uma situação de crise a vários níveis.

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  • Primeira estrofe

Na primeira estrofe, é caracterizado o estado da nação á data. Pessoa considera que Portugal está num estado letárgico, indefinido, como um manto de nevoeiro: “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, / Define com perfil e ser / Este fulgor baço da terra / Que é Portugal a entristecer –“. É a tal “crise de identidade” que refere na sua pergunta. É uma crise tão profunda, tão sedimentada, que não haverá nenhuma mudança pelo governo dos homens. Nem a guerra – mudança das mudanças – poderá demover Portugal do seu triste estado. Como um “brilho sem luz”, Portugal vive, mas é uma vida triste e inconsequente, sem destino.  Pessoa depara-se com o facto de haver um brilho exterior, ou seja, uma vida existente na parte de fora de todos os indivíduos, ou seja, vê que há quem enriqueça, quem tenha família, quem procrie, e quem morra. Mas toda a vida sem sentido é como “brilho sem luz e sem arder”. É mais ainda, é pior, é “como o que o fogo-fátuo que encerra” ou seja, é a aparência do brilho, mas sem luz interior, sem esse mesmo brilho, interiormente. Quem vive assim não vive, sobrevive somente. Apresenta então um brilho que se assemelha aquele que sai dos cemitérios, dos pântanos, um brilho artificial e podre, apagado, próprio dos corpos mortos e decompostos.

  • Segunda estrofe

Na segunda estrofe, é realçada a antítese entre o desanimo do presente e a esperança no futuro. Aqui é confirmado o que foi dito na estrofe anterior. Depois de desenhar o perfil psicológico global, Pessoa passa ás almas individuais. São elas que não sabem o que querem, nem tão pouco se conhecem, inevitavelmente caindo num decadente vazio moral. Como o país, os seus habitantes partilham do mesmo destino, são porções ínfimas que constituem o “Nevoeiro” que se vê mais do alto. Portugal é então um país perdido, onde “ninguém sabe que coisa quere”, onde “ninguém conhece que alma tem” sem noção nem do que “é o mal nem o que é bem”. Portugal assiste uma sociedade amoral, desligada dos mais altos valores, da nacionalidade, do espírito de unidade religiosa, sobretudo da irmandade, havendo, no entanto, uma esperança ténue que reside no intimo de cada um, encaminhando e florindo um desejo de mudança.
A expressão entre parênteses é o momento de viragem do poema. Embora ele seja de essência triste, neste momento começa a exortação à mudança. Isto porque a descrição que Pessoa faz é positiva, mesmo que use a negatividade para enfatizar o seu discurso. Depois de duas estrofes mortas, Fernando Pessoa grita de peito cheio de ar, ao infinito: “É a Hora!” (Resposta à pergunta deixada na segunda estrofe do poema “sem título” em os “Avisos”). Não se deduz se esta hora será humana ou divina, mas será certamente uma hora certa e inevitável. Com esta frase final, Fernando Pessoa desvanece-se, tal como o “mostrengo servo”, deixando a cada um de nós a tarefa de revelar em nós mesmos os mistérios que ele nos tem vindo a anunciar. A mensagem da Mensagem é então procurar no íntimo a razão que ilumina a vida que vale a pena ser vivida, sendo assim uma tradução a um final que se caracteriza e a nós se apresenta como otimista e positiva.

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Conclusão

Resumindo, não é só Portugal que é nevoeiro, tudo é nevoeiro – diz-nos o poeta. O mesmo é dizer que em tudo há mistério e possibilidade de mudança. Se a indefinição é má, é positiva do ponto de vista de ser maleável, ou seja, uma fonte de todas as mudanças futuras. Nesta perspetiva o passado não é mais do que uma ponte para o futuro. Os grandes triunfos no mar, as conquistas materiais, tiveram o seu tempo e existiram para serem passageiras, foram uma lição de humildade. A recompensa não é da terra, é dos céus e deve nos céus ser procurada. Senão as conquistas não teriam feito do país “Nevoeiro”.