Ser Poeta Analysis by Florbela Espanca

Estrutura

Este poema é um soneto, composto por catorze versos e dividido em dois quartetos e dois tercetos decassilábicos. O esquema rimático é ABBA/ABBA/CDC/EDE, contendo rima emparelhada e interpolada nas quadras (ABBA/ABBA) e nos tercetos rima interpolada e cruzada (CDC/EDE).

Recursos Estilísticos

As três primeiras estrofes apresentam uma série de definições genéricas do que é ser poeta. A autora usa vários recursos estilísticos para dar corpo a essas definições: a metáfora (“É ter garras e asas de condor”); a hipérbole (“É ser maior do que os homens”); a anáfora (repetição da forma verbal “É”); a comparação (“Morder como quem beija”); a antítese (“mendigo” / “Rei”); a exclamação (“Morder como quem beija!”) e as reticências (“Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…”).

Interpretação do poema

  • Primeira estrofe

Para a autora, o poeta é um ser quase que sobrenatural (“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior/ Do que os homens!”), alguém que tem o poder de transformar o doloroso em prazer, o bruto em suave (“morder como quem beija”), que se sobressai através da sua escrita. O poeta é também equiparado a um rei (“É ser mendigo e dar como quem seja/ Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!”) no que se refere aos seus poderes- apesar de ser um mendigo, consegue dar o que só um rei poderia dar. Este mendigo-rei possui um reino rico em imaginação, no qual finge que é dor a dor que de facto sente.
Realça-se aqui uma relação com o texto bíblico, no que se refere ao beijo de Judas, “o traidor”. O par paradoxal “morder-beijar” conduz-nos  a uma leitura possível de que o poeta é um “traidor”, precisa beijar para trair. A bíblia revela que Jesus era um homem de dores, rei dos judeus, e que estava acima do campo material (dor física), assim também, o poeta se sente e é associado a um homem que está acima dos homens, “um homem” que representa homens. Pois todo homem sente dor, o poeta sente além da dor. Sendo “Rei dos Judeus”, Jesus nasceu como mendigo, assim o poeta mostra-se como mendigo, para alcançar a posição de Rei do Reino.

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  • Segunda estrofe

Ele é também alguém que tem desejos incontroláveis sem mesmo saber o que deseja (“É ter de mil desejos o esplendor/ E não saber sequer que se deseja!”).
Adiante, este ser é também descrito como alguém que tem um astro (“É ter cá dentro um astro que flameja”) dentro de si e, portanto, irradia luz, uma luz intensa, poderosa, completa. Comparado ao condor (“É ter garras e asas de condor!”), ave de voo longo e solitário, fica o alerta implícito de que com o esplendor vem o isolamento. Numa outra perspetiva, o poeta assim se compara ao mais preparado, o representante de sua espécie, pois é o único que tem “garras e asas de condor”, e o que consegue ter fome e sede, não de coisas finitas (inerente ao homem), mas de infinitas.


  • Terceira estrofe

Trava uma batalha sem fim (“É ter fome, é ter sede de Infinito! / Por elmo, as manhas de oiro e de cetim… /É condensar o mundo num só grito!”), que anseia terminar. Protege-se nessa batalha com a sua imaginação- a arma mais poderosa de um poeta. O resultado dessa luta é a plenitude, o ser superior aos outros homens. A plenitude reflete-se também na presença de uma espécie de grito poético, em que o sujeito lírico afirma que ser poeta é condensar o mundo num só grito, alcançando, assim, a plenitude da expressão.

  • Quarta estrofe

Na última estrofe, dá-se a chave do poema, em que a poetisa entra no foro pessoal e aborda o ser amado, revelando a força dos seus sentimentos (“E é amar-te, assim, perdidamente…/ É seres alma, e sangue, e vida em mim”). O sujeito poético afirma que ser poeta é, também, amar alguém e escrever esse amor, para que todos os saibam “E dizê-lo cantando a toda a gente!”.

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A poetisa

Florbela Espanca, poetisa pertencente ao Modernismo português, apresenta em sua poesia uma vertente neo-romântica, marcada pelo erotismo, sensualidade e pela ânsia de liberdade de expressão, além de privilegiar a riqueza do léxico, numa linguagem que explora os símbolos e as imagens sugestivas. A poesia de Florbela utiliza-se de jogos de palavras e metáforas, dentre outras figuras de linguagem, do ponto de vista formal. Já no que se refere à temática, notam-se traços como a investigação do eu-lírico acerca do processo de criação literária, além de interrogações de cunho existencial.
Florbela Espanca conseguiu resistir ao seu tempo. Fez uso da palavra com maestria e ousadia. Representou um eu-lírico feminino que ultrapassou os limites de seu tempo, rompendo tabus e construindo novos sentidos, “sendo alma e sangue e vida em si, condensando o mundo através de sua poesia e dizendo cantando a toda gente que ser poeta é ser maior, mordendo como quem beija, morrendo para encontrar a sua plena infinitude”, sua plena resistência na busca da formação de um lugar para ancorar a sua identidade.

Contexto

O poema “Ser Poeta”, pertence à coletânea “Charneca em Flor”, de Florbela Espanca, e foi publicado em 1931, contribuindo para a emancipação literária da mulher. Nele, a autora consegue expor seu eu-lírico, sedento por libertação. A produção poética florbeliana caminha para a fusão da vida e da poesia, numa incessante busca da plenitude artística, do “despertar”, do pensar livremente, do romper e construir novos paradigmas em torno das vozes que silenciosamente nascem em seu mundo interior e se manifestam através da sua imaginação, produzindo uma expressão escrita segura e de qualidade poética.
É no soneto que Florbela Espanca traduz os seus sentimentos, a sua escrita tremendamente profunda e intimista. E em “Ser Poeta”, Florbela consegue expor um “eu” plural, digno de ser identificado pelas palavras, sons e imagens que em fusão de perfeita interação, constrói uma identidade do trabalhar poético, do ser poeta, do seu ofício transcendental, capaz de representar-se apresentando-se, ” É ter de mil desejos o esplendor/ E não saber sequer que se deseja!/ É ter cá dentro um astro que flameja,/ É ter garras e asas de condor!” .
 

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