Amor é fogo Analysis by Luis de Camões

Contexto

O contexto central da poesia lírica de Camões é o amor. Camões descreve dentro da literatura clássica o sentimento mais sublime do homem, de modo a expressar nos seus sonetos, situações de felicidade e sofrimento, advindas do amor, apontando uma ideia de complexidade e contrariedade que valorizam esse sentimento, e, que, o amor seja concretizado e não apenas internalizado, assim, o homem poderá chegar ao bem e a verdade almejada, bem além da sua condição terrena.
A maior parte da obra lírica de Camões compõe-se de sonetos que são compostos de versos decassílabos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos e de redondilhas que eram estrofes com versos de cinco ou sete sílabas.

Análise estrutural

Especificamente, este poema é constituído por duas quadras e dois tercetos, em que as rimas estão interligadas em esquemas cruzados e emparelhados, mas também se interligam de estância para estância. As rimas apresentam o esquema ABBA ABBA CDC DCD, sendo, portanto, interpoladas nos quartetos e encadeadas nos tercetos. Quanto à natureza das rimas, há alternância entre ricas e pobres: na primeira estrofe, a rima que se encontra no primeiro verso rimando com o quarto é pobre (rima A), visto que as palavras apresentam a mesma classe gramatical: verbo (ver / doer). Porém, a rima do segundo verso com o terceiro (rima B) é rica, pois pertencem a classes gramaticais diferentes: uma é verbo e a outra é adjetivo (sente / descontente).
O mesmo acontece na segunda estrofe: as rimas A são pobres, pois as palavras rimadas são verbos (querer / perder). Mas as rimas B são ricas, pois uma é substantivo e a outra é adjetivo (gente/ contente). Na terceira, as rimas C estrofe as rimas são pobres, pois vontade (substantivo) está rimando com lealdade (substantivo). Entretanto, a rima D do décimo verso é um adjetivo (vencedor) rimando com um substantivo (favor), sendo esta uma rima rica.
Na quarta estrofe, com o esquema de rima DCD, a rima D do décimo e segundo verso é um substantivo (favor) rimando com a rima D do décimo e quarto verso, que é outro substantivo (amor), é uma rima pobre; assim como a rima C do décimo e primeiro verso da terceira estrofe que é um substantivo (amizade) rimando com outro (lealdade).
No conjunto, fica a impressão de um ritmo de simétrica regularidade.
Os versos têm estrutura bimembre e contêm afirmativas que se repartem em enunciados contrários (antitéticos). Essas oposições simetricamente dispostas nos versos, acumulam-se em forma de gradação (clímax), para desembocar na desconcertante interrogação/conclusão do último verso sobre os efeitos do amor. As contradições, por vezes, são aparentes porque o segundo membro do verso funciona como complemento do primeiro, especificando-o e tornando-o ainda mais expressivo, quando confronta duas realidades diversas: uma sensível (“ferida que dói”) e uma espiritual, que transcende a primeira (“e não se sente”).
É o caso do 1º, 2º, 4º e 5º versos. No 1º verso, por exemplo, o segundo membro (“sem se ver” significa interiormente;) no 2º verso, o Amor “é ferida que dói (exteriormente) e não se sente” (interiormente); no 4º verso, o Amor “é dor que desatina (exteriormente) “sem doer” (interiormente) e, no 5º verso, a noção é a de que não é possível querer mais, de tanto que se quer, de tanto que se ama. Mesmo que se tome o referencial fogo como elemento de contraste entre os dois membros desses versos, este mesmo fogo, contraditoriamente, “arde sem se ver”.
A reiteração do verbo ser (“É”) no início dos versos, do 2º ao 11º, configura uma sucessão de anáforas, uma cadeia anafórica. O soneto inicia-se e termina com a mesma palavra – Amor -, sentimento contraditório, que é o tema da composição. 
Quanto à métrica, os versos são decassílabos (dez sílabas poéticas), com predomínio dos decassílabos heroicos, nos quais a sexta e a décima sílabas são sempre tónicas.

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Interpretação

O soneto trata de um conceito do amor na conceção do neoplatonismo, pois, acentua-se o dualismo platónico entre sensível e inteligível, matéria e espírito, finito e infinito, mundo e Deus. Este soneto é uma definição poética do amor. Como se Camões quisesse definir este sentimento indefinível e explicar o inexplicável, colocando imensos contrastes para caracterizar este “mistério”. Para Camões, o Amor (com A maiúsculo) é um tipo de ideal superior, perfeito e único, pelo qual há o anseio de atingi-lo, mas como somos imperfeitos e decaídos, somos ao mesmo tempo incapazes de chegar a esse ideal. O amor é visto, então, como um sentimento que envolve sensações e que ocorre quando existe um senso de identidade entre pessoas com identidades bem definidas e diferenciadas. Existe a dualidade da incerteza do amor “físico” (com a minúscula) com o Amor ideal, assim o amor é um tipo de “imitação” do Amor, na realidade o autor procura compreender e definir o processo amoroso.
Conceituando a natureza paradoxal do amor, o soneto ressalta em enunciados antitéticos, compondo um todo lógico, o caráter paradoxal do sentimento amoroso. Esclarecendo-se, entretanto, que tais contradições são, por vezes, aparentes, pois, a segunda parte de cada verso funciona como complemento da primeira, enfatizando-a por intermédio da aproximação de realidades distintas. O especto material, sensível “ferida que dói”, “é dor que desatina” é oposto ao espiritual “em que se sente”, “sem doer”, como, de resto pode-se observar ao longo de todo o soneto, culminando com a indagação final, a traduzir toda a perplexidade diante da total impossibilidade de se compreender o próprio amor. Camões parece estar coberto de razão ao afirmar que “tão contrário a si é o mesmo amor”, mas diversamente do percurso camoniano, ele aponta para a alma, então, o poeta parece chegar a uma conclusão, expressada pela interrogação no último terceto. A forma do soneto corresponde ao tema do poema. Podemos dizer que á primeira vista é um jogo renascentista, mas depois descobrimos o sentido profundo do poema. E nisso encontramos a arte do autor – nesta capacidade de abordar de forma suave (como se fosse jogo) um tema que nos faz pensar profundamente nos problemas psicológicos bastante complicados. Portanto este soneto trata de uma verdade enunciada com aparência de mentira.
A temática do paradoxo amoroso e da contradição entre o desejo e o amor são influências da poesia de Petrarca, que ressaltava as dores do querer.
É interessante perceber que, após demonstrar pelas metáforas as contradições do amor, o poema termina com uma pergunta e mantém a dúvida no leitor, afastando as certezas de um universo marcado pelas dúvidas e pela tensão de elementos antagônicos, elencados em uma sucessão de anáforas.

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