Boas Noites Analysis by João de Deus

O poeta

João de Deus de Nogueira Ramos nasceu a 1830 em São Bartolomeu de Menisses (Silves, Algarve).
Oriundo de famílias humildes, tinha 13 irmãos, estudou latim na sua terra natal e aos seus 19 anos foi para a Universidade de Coimbra. No ano de ingresso na universidade revelou os seus dotes líricos e em 1858, recebeu uma crítica fortemente elogiosa no artigo A propósito de um Poeta, publicado no Instituto de Coimbra. Em 1859, terminado o curso, opta por permanecer em Coimbra, praticando pouca advocacia e continuando a escrever, agora produzindo poesia de carácter satírico, entre as quais ressalta A lata e A Marmelada.
Não tendo interesse pela advocacia, em 1862 aceita o convite para ir para Beja como redator do periódico O Bejense, então o jornal de maior expansão no Alentejo. Permaneceu em Beja até 1864, regressando nesse ano à sua terra natal, mantendo uma colaboração com a imprensa regional alentejana e algarvia e redigindo a Folha do Sul, em São Bartolomeu de Messines e em Silves tentou sem sucesso a advocacia, tendo em 1868 optado por partir para Lisboa, cidade onde passou a residir.
Em 18 de Maio de 1868 presta juramento nas Cortes, iniciando a sua atividade parlamentar e nesse ano também casa com Guilhermina das Mercês Battaglia, uma senhora de boas famílias, ganhando estabilidade na sua vida pessoal. Desse casamento nascem quatro filhos. Com o casamento e a passagem pelas Cortes, inicia a publicação da sua obra poética e dramática. Logo nesse ano publica a Flores do campo, a que se segue uma pequena recolha de 14 poemas intitulada Ramo de flores (1869), considerada a sua melhor obra poética.
João de Deus viria a falecer, aos 65 anos, no dia 11 de Janeiro de 1896, devido a uma doença cardíaca. As suas obras: Flores do Campo (1868), Folhas Soltas (1876) e Campos de Flores (1893). Foi, ainda, autor de fábulas e de obras destinadas ao teatro, estas na maior parte dos casos traduções e adaptações de autores estrangeiros.
A sua obra mais importante viria a ser a Cartilha Maternal, um método destinado a ajudar a aprendizagem da leitura a criança, que ainda hoje mantém seguidores. A Cartilha Maternal é uma obra de natureza pedagógica, publicada em 1876, após dez anos de trabalho no projeto de criação de um método de leitura que se destinava a servir de base a um método de ensino da leitura às crianças. É uma das obras mais vezes reimpressas em Portugal, tendo sido extensivamente usada nas escolas portuguesas por quase meio século, ainda mantendo alguns seguidores. Para João de Deus «a primeira condição para ensinar por este método é o estudo da fala», desenvolvendo uma metodologia que, segundo ele próprio, «se funda na língua viva, não apresenta os 6 ou 8 abecedários do costume, senão um, do tipo mais frequente, e não todo, mas por partes, indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que se digam, que se ouçam, que se entendam, que se expliquem, de modo que, em vez de o principiante apurar a paciência numa repetição néscia, se familiarize com as letras e os seus valores na leitura animada de palavras inteligíveis».
Para além das obras mencionadas, deixou um Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil (1870), e as obras poéticas Ramo de Flores (1869) e Despedidas de Verão (1880).
João de Deus foi um eminente poeta lírico e pedagogo, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, ainda usado. A poesia lírica de João de Deus, com sua serenidade e seu estilo simples, é um dos últimos momentos significativos do romantismo em Portugal. Foi aclamado como o poeta do amor.
Encontra-se sepultado no  Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa.

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O poema

É um poema lírico onde se fala de uma lavadeira e de um caçador, que são as personagens principais deste poema, e que se encontraram junto de uma ribeira. O sujeito poético deste poema é o caçador, que demonstra que a sua verdadeira intenção é encontrar-se com a lavadeira.
Todo o poema é traduzido por um diálogo entre uma lavadeira e um caçador. Durante a conversa há momentos de ironia da parte do caçador, que tenta indiretamente conquistar a lavadeira.

Análise estrutural

Este poema, retirado da obra Campo de Flores, é constituído por 9 estrofes, e um total de 31 versos. Contém um terceto, quatro monósticos, uma quintilha, uma quadra, uma sétima e uma oitava.
Contém rima emparelhada (AA), cruzada (ABA), interpolada (BAAB) e branco:

  • 1ªestrofe – 3 versos – terceto; rima emparelhada

Estava uma lavadeira (A)
a lavar numa ribeira (A)
Quando chega um caçador (B)

  • 2ªestrofe – 1 verso – monóstico; verso branco

– Boas tardes, lavadeira! (A)

  • 3ªestrofe – 1 verso – monóstico; verso branco

– Boas tardes, caçador! (B)

  • 4ªestrofe – 5 versos – quintilha; rima interpolada

– Sumiu-se a perdigueira (A)
Ali naquela ladeira; (A)
Não me fazeis o favor (B)
De me dizer se a brejeira (A)
Passou aqui a ribeira? (A)

  • 5ªestrofe – 4 versos – quadra; rima cruzada ou alternada

– Olhai que, dessa maneira, (A)
Até um dia, senhor, (B)
Perdereis a caçadeira, (A)
Que ainda é perda maior. (C)

  • 6ªestrofe – 7 versos – sétima; rima cruzada ou alternada

– Que me importa, lavadeira! (A)
Aqui na minha algibeira (A)
Trago dobrado valor… (B)
Assim eu fora senhor (B)
De levar a vida inteira (A)
Só a ver o meu amor (B)
Lavar roupa na ribeira! (A)

  • 7ªestrofe – 8 versos – oitava; rima interpolada
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– Talvez que fosse melhor… (C)
Ver coser a costureira! (A)
Vir de ladeira em ladeira (A)
Apanhar esta canseira, (A)
E tudo só por amor (B)
De ver uma lavadeira (A)
Lavar roupa na ribeira… (A)
É escusado, senhor! (B)

  • 8ªestrofe – 1 verso – monóstico; verso branco

– Boas noites… lavadeira! (A)

  • 9ªestrofe – 1 verso – monóstico; verso branco

– Boas noites… caçador! (A)
Todo o poema tem 7 silabas métricas, sendo então uma redondilha maior/ poema heptassilábico.

Recursos estilísticos

Ao longo deste poema, três recursos estilísticos são usados: a ironia, a aliteração e a antítese:

  • Ironia

– “Talvez que fosse melhor…
Ver coser a costureira!”

  • Aliteração (letra “v”)

– “Estava uma lavadeira
A lavar n’uma ribeira,”

  • Antítese

– “Talvez que fosse melhor…
Ver coser a costureira!
Vir de ladeira em ladeira
Apanhar esta canseira,
E tudo só por amor
De ver uma lavadeira