As palavras Analysis by Eugénio de Andrade

O poeta

Eugénio de Andrade é o pseudónimo de José Fontinhas. Nascido a 12 de Janeiro de 1923 no Fundão, no seio de uma família de camponeses, passou toda a sua infância com a mãe, na aldeia natal. Pensou em entrar num curso de Filosofia, mas logo abandonou essa ideia para se dedicar à escrita, atividade que mostrou profundo interesse desde cedo. Foi poeta, escritor, tradutor, galardoado com vários prémios (em Setembro de 2003 a sua obra Os sulcos da sede foi distinguida com o prémio de poesia do Pen Clube Português).F aleceu em 13 de junho de 2005, no Porto.
Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu fora da vida social, literária ou mundana. O poema “As Palavras”, é um dos mais carismáticos deste autor contemporâneo e aborda o tema da reflexão sobre o valor polissémico das palavras.

Análise estrutural

O poema é constituído por quatro estrofes, duas quintilhas e duas quadras. A maioria dos versos são soltos/brancos havendo apenas uma rima que é cruzada, pobre e consoante. 
São usadas algumas figuras de estilo como a comparação – “São como um cristal, as palavras.” ; metáfora – “Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam (…).”, “Tecidas são de luz”, “ (…) são noite.”; antítese – “Tecidas são de luz e são noite.”; enumeração – “(…) cruéis, desfeitas (…).”, “Desamparadas, inocente, leves (…)”; interrogações retóricas – Quem as escuta? Quem as recolhe (…) nas suas conchas puras?”.

Interpretação

O poema divide-se em duas partes: a primeira que se ocupa das três primeiras estrofes e a segunda que se ocupa da última- uma divisão lógica pois na primeira parte o “eu” poético limita-se a descrever as palavras e na segunda e última o “eu” interroga os leitores acerca das palavras também.

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  • Primeira estrofe

Na primeira estrofe as palavras são associadas a um cristal, a um punhal, a um incêndio e ao orvalho.
Ao comparar as palavras a um cristal (poderosas e preciosas) e ao orvalho (calma e serenas), o poeta refere-se as palavras quando estas são boas; quando fala em punhal (sofrimento e dor) e em incêndio (destruidoras) está a referir-se às vezes em que as palavras se apresentam como más.
A mensagem que se passa é que conforme os momentos, as pessoas, a forma como são proferidas, as palavras têm estes diferentes papéis.
Outra interpretação para as palavras serem comparadas a um cristal pode-se prender com o facto de os cristais possuírem várias faces, tal como a palavra possui vários sentidos. Além disso, como os cristais, as palavras podem adquirir vários significados (polissemia), podem ser claras, transparentes, belas, brilhantes, isto é, são “multifacetadas”. Ao serem identificadas com um punhal (metáfora), somos remetidos para a agressividade, dor, morte e sofrimento que podem carregar; com um incêndio, pois podem queimar, destruir, aludindo pois à sua capacidade de destruição e também de regeneração; e finalmente com o orvalho “apenas”, metáfora que nos conduz à suavidade das palavras, capazes de despertar a calma, a brandura, o amor e a esperança.

  • Segunda estrofe

Na seguinte estrofe, o primeiro verso refere-se às palavras como sendo algo que ao longo dos tempos trazem consigo as mais variadas histórias e os mais secretos segredos dos homens; com o passar do tempo vão recebendo novos significados, evoluindo, carregando os segredos da história dos homens e acompanhando os seres humanos como instrumento indispensável de comunicação; trazem consigo um saber muito antigo (“Secretas vêm, cheias de memória”). Funcionam assim como elemento essencial na comunicação desde a antiguidade.
As palavras navegam inseguras porque por vezes são barcos (que atravessaram tempestades e tormentas, dificuldades…) e beijos (associado a algo bom…), causam insegurança e agitam as pessoas. No entanto, como os barcos e beijos, fazem estremecer as águas, parecendo querer dizer que as palavras têm um poder enorme comparando com o seu poder à força de revoltar as águas. Com efeito, os versos 8 a 10 (“Inseguras navegam / barcos ou beijos / as águas estremecem”) revelam insegurança quer das palavras, que agitam as pessoas, quer dos barcos, que agitam as águas. Ao amor representado pelos beijos, ninguém lhes fica indiferente, assim como às palavras.  O sujeito poético caracteriza as palavras como “desamparadas” (porque estão ao alcance de todos), “inocentes” (porque não representam qualquer perigo, mas podem ser usadas e abusadas) e “leves” (quando não têm importância no texto). Estamos na presença de características que conferem alguma fragilidade às palavras, mas não nos devemos esquecer que as palavras podem ser usadas de várias formas, com vários tons. Uma palavra “leve” e “inocente” também pode ofender, caluniar… 

  • Terceira estrofe

Tecido é algo que envolve, portanto o poeta parece querer transmitir que as palavras são cobertas com luz (pode referir-se à alegria ou à felicidade), mas, no entanto, são igualmente apresentadas como a noite (pode referir-se à infelicidade ou à tristeza). Por outro lado, a metáfora e a antítese “Tecidas são de luz / e são a noite” realçam as contradições que as palavras contêm (positividade versus negatividade) e o seu sentido conotativo: há as que surgem cobertas de luz, são claras, transparentes, mas estas mesmas podem também ser a noite, podem ser negras, escuras, sombrias. Por seu turno, nos versos “E mesmo pálidas / verdes paraísos lembram ainda”, o autor reconhece que, mesmo que as palavras não sejam intensas (menos boas), ainda assim, podem lembrar-nos locais muito bons como “verdes paraísos”.

  • Quarta estrofe
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O poema termina com duas interrogações retóricas, através das quais o eu poético chama a atenção do leitor, dizendo-lhe que lhe cabe o papel de intérprete das palavras, do seu significado, de acordo com a sua experiência de vida, com o seu modo de sentir. Cada leitor pode interpretar as palavras de diferentes modos e atribuir-lhes um sentido de acordo com a sua experiência de vida, de foro pessoal. É o leitor quem vai abrir as conchas puras, com as palavras lá dentro cheias de mistério, atribuindo-lhes um sentido. As interrogações retóricas “Quem as escuta? Quem/as recolhe, assim, /cruéis, desfeitas, /nas suas conchas puras?” apelam à releitura das palavras. O autor pretende dizer que cada leitor pode interpretar as palavras de diferentes modos e atribuir-lhes um sentido.