Lágrima de Preta Analysis by António Gedeão

Estrutura

Poema composto por 24 versos, distribuídos por 6 estrofes. Cada estrofe apresenta 4 versos (quadra). Possui rima interpolada, emparelhada e rima solta.
A linguagem usada é simples, tendo em conta a formação de António Gedeão. Este remete-nos para um sentimento de tristeza, lamuria, mas ao mesmo tempo de esperança.
O poema está dividido em três partes: Na primeira parte, o sujeito encontra a preta a chorar. Na segunda parte, a lágrima é sujeita a uma análise química. Na terceira parte, o sujeito revela as suas conclusões. As figuras de estilo detetadas são a antítese (Frio – Lume), a enumeração (Ácidos, Bases e Sais.) e a metáfora (Nem sinais de negro).

Contexto

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (Lisboa, 24 de Novembro de 1906 – Lisboa, 19 de Fevereiro de 1997), português, foi um químico, professor de Físico-Química do ensino secundário, pedagogo, investigador de História da ciência em Portugal, divulgador da ciência, e poeta sob o pseudónimo de António Gedeão. Pedra Filosofal e Lágrima de Preta são dois dos seus mais célebres poemas. Faleceu em 1997.
Em 1956, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho tem 50 anos e publica, com o pseudónimo de António Gedeão, o seu primeiro livro de poesia.
Até aí era apenas conhecido como professor, embora o seu talento de pedagogo e de divulgador já se tivesse manifestado em obras publicadas nestes dois domínios. Apesar da sua obra poética ter aparecido tardiamente, Rómulo de Carvalho desde muito cedo revelou uma surpreendente veia poética. Fugindo ao sentimentalismo, a sua poesia tinge-se de terna ironia, de um aparente ceticismo, porque, no fundo, o poeta sabe, como poucos, “que o sonho comanda a vida/Que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/entre as mãos de uma criança”. Mesmo algo cético em relação às movimentações humanas, António Gedeão continua a acreditar numa realidade diferente e, em termos de esperança e de confiança, estes versos são dificilmente superáveis.
A obra poética que assinou com o nome de António Gedeão terá sido porventura a que mais fundo tocou muitas pessoas e a que lhe deu maior notoriedade pública. Tocou fundo, certamente, muitos dos que a leram para si; tocou os que leram e disseram a sua poesia, alguns magnificamente, tocou os que cantaram e musicaram poemas seus. Terão sido estes os principais agentes da descoberta de Gedeão por um público vasto e diversificado. Gente de variada condição, jovens e menos jovens, habitantes da “aldeia”, onde o poeta se encontra e confunde “com gente de todo o mundo que a todo o mundo pertence”. Aldeia que é afinal a própria poesia, centro onde todos convergem, diferentes, todos, mas iguais na sua condição humana.
O poema “Lágrima de preta” de António Gedeão  transmite-nos uma mensagem profunda e uma lição cheia de humanismo. Em primeiro lugar, deveremos referir que António Gedeão é um poeta, mas também um professor de Ciências Físico-químicas. Assim sendo, ao poema “Lágrima de preta” pode ser feita uma análise poética, análise científica e social.

Ciência

A perspetiva científica pode passar despercebida a alguém que não domina a ciência, mas é muito explícita nesta poesia. Há a referência a alguns processos inerentes ao próprio método de experimentação. Em primeiro lugar, a interrogação que desencadeia todo o problema que se quer resolver. Por alguma razão, a lágrima recolhida é de uma pessoa preta e vai ser submetida a análise, o que indica que há uma dúvida por detrás que precisa de ser esclarecida e que só se compreende no fim do poema. Seguidamente vem o cuidado da recolha, num tubo de ensaio esterilizado para não haver contaminação externa. A gota é observada cuidadosamente (“olhei-a de um lado, do outro e de frente, tinha um ar de gota muito transparente”) e é submetida a testes de natureza química, utilizando-se os reagentes necessários (“mandei vir os ácidos, as bases e os sais e as drogas usadas em casos que tais”), seguindo determinados procedimentos (“ensaiei a frio, experimentei ao lume”), metódica e repetidamente (“de todas as vezes”) até obter algo que levasse a uma conclusão (“deu-me o que é costume (…) água e cloreto de sódio”).
 

Poesia e Racismo

Neste sentido, o sujeito poético vai analisar uma lágrima de preta e provar que ela é igual a qualquer outra lágrima. Esta é a ideia central do poema, onde vemos a vertente anti-racista do mesmo, que poderá ser exposto em qualquer propaganda contra o racismo realizada nos dias de hoje.
 
O sujeito poético recorre a uma fina ironia, é de notar a escolha intencional do nome “preta”, com uma carga usualmente negativa, para a analisar cientificamente. O poeta é taxativo pois indica que na lágrima não encontrou vestígios de negro, nem quaisquer sinais de ódio”, querendo sugerir a atitude pacífica, de compreensão e de tolerância de que é portadora esta “…preta que estava a chorar”. Em «Lágrima de preta» surge portanto uma desmontagem de argumentos racistas e colonialistas.
 
O poeta suscita nos leitores uma reflexão sobre o essencial e o acessório, sobre o interior e o exterior, sobre a essência e a aparência, sobre o modo como convivemos com o outro e como aceitamos a diferença.
 
António Gedeão pretende, fundamentalmente, denunciar preconceitos, pré-juízos que comandam uma certa ideologia de que há raças, povos ou gentes que são superiores a outros e que tem servido de justificação ao longo da História, para atitudes e comportamentos de marginalização, de exploração, de exclusão, de intolerância (racismo, xenofobia) perante quem é diferente, seja na cor, na raça, ou no credo.
É no final do poema que podemos analisar a perspetiva social ao retomarmos toda a construção do poema. Tem-se a mensagem sobre o racismo, sobre o preconceito e o sofrimento causado, que o poeta apresenta de modo muito relevante ao propor um poema sobre um tema que é abordado na sociedade em diferentes formas.
A beleza deste poema está na simplicidade da sua construção, com versos curtos e simples, composto por seis quadras dotadas de musicalidade e vocábulos técnicos em perfeita sintonia com os mais correntes ou de sentido mais subjetivo. Os pequenos versos escritos em linguagem científica enriquecem o poema, na medida em que relacionam uma simples gota de água com sal dissolvido com todo um processo de experimentação complexo que envolve várias substâncias químicas.
 
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